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quarta-feira, 30 de março de 2011

UM VICE COMO NUNCA ANTES

Não creio que tenha existido na História do Brasil um vice-presidente tão popular quanto José Alencar. Aliás, pouquíssimos vices foram conhecidos do grande público, exceção feita àqueles que as circunstâncias históricas alçaram ao cargo máximo da nação. E estes, em geral, não se saíram muito bem: João Goulart foi deposto por um golpe em 1964; Pedro Aleixo foi impedido de assumir pelos comandantes militares (os “três patetas”) depois da doença de Costa e Silva em 1969; e José Sarney comandou uma transição capenga em que a corrupção se institucionalizou. Isso só para ficar nos mais recentes. A exceção foi Itamar Franco, que pegou o país à deriva e, graças à estabilização econômica, conseguiu fazer o sucessor.

Voltando a José Alencar: ele foi um vice singular, que conquistou o respeito e se tornou uma espécie de símbolo nacional, acima das divergências políticas e ideológicas. Sua figura pública combinava as qualidades do sujeito bonachão e espontâneo com convicções sólidas e absoluta transparência no plano pessoal e político. Essas qualidades ficaram expressas na estóica, dramática e pública batalha que ele travou contra o câncer nos últimos 14 anos. Numa conversa em off que tivemos – eu e o jornalista Rudolfo Lago – com Alencar anos atrás, ele nos falou sem constrangimentos de sua doença e das limitações físicas que ela lhe impunha. Também demonstrou coragem e audácia para assumir a defesa de posições que soariam, aos ouvidos delicados, “politicamente incorretas”. Nessa conversa, Alencar disse, com todas as letras, que foi um erro o Brasil ter renunciado à capacidade de construir sua bomba atômica. Não para usá-la, frisava, mas para ter capacidade de dissuasão, projetar poder militar e ser respeitado no concerto das nações. Lembro-me de ter lhe dito que esperava um dia poder revelar publicamente essa posição, com a qual eu concordava. O próprio Alencar desvendou o segredo, tempos depois, e foi até mais longe, quando defendeu o direito de o Irã ter a bomba atômica como elemento dissuasório para não virar um novo Iraque – um país ocupado por tropas estrangeiras e dividido internamente. A possibilidade de Teerã ter armas atômicas escandaliza a grande mídia alinhada aos interesses americanos e os seus "miquinhos amestrados" da classe média paulistana, mas ninguém se incomoda minimamente com o fato de Israel e Paquistão – país que armou o Talibã e dá abrigo a Osama Bin Laden – terem seu arsenal capaz de varrer o Oriente Médio do mapa. Alencar se lixava para esse consenso babaca, assim como sempre desafiou a rejeição preconceituosa da classe média ao metalúrgico-presidente. Mas ele estava tão acima do bem e do mal que nunca foi crucificado por isso.

O ex-vice presidente também encarnou um personagem que parecia sepultado pela marcha batida da globalização e do Consenso de Washington dos últimos anos: o industrial brasileiro com um projeto nacionalista e desenvolvimentista, lutando como um Dom Quixote contra a política rentista dos juros altos que beneficia, fundamentalmente, os interesses do capital financeiro internacional. Como lembrou o jornalista Alon Feuerwerker, Alencar foi um patriota “não só pelo que fez na política. Mais por ter dedicado toda a sua vida útil empresarial à indústria. Um caso raro de empresário brasileiro que percorreu integralmente a trilha da construção do sucesso dedicado a produzir coisas tangíveis. Entre nós não é pouca coisa. Num país nascido e desenvolvido sob a marca do anti-industrialismo, da colônia à República, definitivamente não é pouca coisa”.

Um comentário:

  1. Cláudio, boa matéria. Quantas grandes revelações o José Alencar não teria feito ao seu amigo Lula?. Daí a óbvia conclusão de que não é atoa o singular apreço do Lula por ele.

    Adinaldo

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